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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

Amar de olhos abertos

Noutros tempos, uma mulher sofria um desgosto de amor e oficializava o seu estado de solteirice fechando-se num convento, a rezar e a procurar consolo nos braços imaginários de um Deus que tudo perdoa, fugindo assim ao estatuto de solteirona. Hoje em dia, continua no mercado como material em segunda mão à espera de uma nova oportunidade para sonhar e ser feliz ao lado de alguém.

 

Acerca da capacidade de uma pessoa voltar a apaixonar-se depois de enfrentar a realidade a sangue-frio, há uma questão que me assola o espírito faz tempo e para a qual nunca encontrei respostas: será a maturidade emocional compatível com o estado de paixão?
O passar do tempo, o acumular de desgostos, a experiência, levam-me a entender a minha vida como uma evolução: da insegurança da juventude à procura de um porto seguro no casamento; da decepção da convivência marital à coragem de enfrentar a família e o mundo rompendo com uma relação politicamente correcta; da dor da solidão ao estado de espírito livre de dependências, da cegueira do deslumbramento amoroso à descrença nas promessas dos homens… Não, não é que me tenha tornado amarga, não me vejo como uma pessoa amargurada, mas há muito que deixei de esperar por quem não sei. Talvez o meu padrão de exigências relativamente aos outros não esteja absurdamente inflacionado apenas porque estou mais lúcida, mas talvez seja um escudo, uma carapaça contra tentativas que, inconscientemente, considero inúteis porque nunca funcionaram comigo.
Fechada num convento, uma mulher podia ser feliz, podia encontrar a sua paz de espírito através das suas orações e esperar pacientemente pelo paraíso; fechada nela mesma e continuando a participar no mundo civil, uma mulher alimenta-se do dia, de mais um esforço, de um pouco mais de realidade, ao ponto de adquirir a capacidade de ver o cupido a atirar setas às pessoas que lhe estão próximas e sorrir maravilhada, enquanto pensa: “também já tive a minha vez”.
Quando uma mulher que já amou demais é obrigada a lutar para alcançar o seu lugar na sociedade, tem que pagar portagem: a estrada do passado é o outro lado, o que ficou para trás. Aqui, deste lado da cancela a via tem só um sentido para chegar a mim. E em mim a fé não me cega, em mim apenas a realidade e uma dúvida: será possível? Será possível uma pessoa voltar a apaixonar-se de olhos tão abertos?
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3 comentários

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    AL 26.09.2008

    Carla, compreendo o teu ponto de vista, mas generalizar, neste caso, é um pouco arriscado. Repara:

    1. Eu conheço homens a sofrer por amor. por norma, eles não exteriorizam tanto, mas também sofrem e também têm crises de solidão (Ah, pois é!)...

    2. Estou contigo quanto a irmos vivendo sem nos preocuparmos muito com o que virá depois, mas parar de vez em quanto para pensar também pode ser útil para nos ajudar a perceber melhor o que queremos da vida (isto agora é a minha parte mais lúcida a falar).

    3. Todos, independentemente do género nos podemos divertir, agora aquilo que é divertido para "A" pode não o ser para "B" e vive-versa, sejam quais forem as razões. Sim, é verdade: os meninos têm pilinha e as meninas rachinha e...?

    Precisamente para não alimentarmos estigmas o melhor será deixarmos de justificar um ou outro comportamento ou reflexão com base nas diferenças culturais do género, torna-se redutor.

    Quanto ao príncipe encantado é um pouco como as bruxas... Será!?
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    Carla 26.09.2008

    Olá Ana,

    Lamento mas discordo. Podes parar, analisar, reanalisar, encomendares um estudo a um especialista...e se no fim perceberes que o que queres da vida é uma paixão, alguém que te trate bem, a quem ames, respeites e que te devolva tais sentimentos...irás ter de esperar que apareça uma, como todos os outros.

    Há coisas na vida que não se programam. Acontecem ou não acontecem. Podem surgir ou não, e quando surgem, reconhecemo-las ou não, aproveitamo-las ou não.

    Sentimentos não se programam ou analisam como carreiras, percursos de férias ou afins. É o mundo do acaso, acidental....e como se diz, enquanto não surge o principe, ou te divertes com quem te parece bem, ou te escravizas com um qualquer que se julgue dono de ti.

    É a minha opinião.
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