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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

Filhos do Divórcio

Para além de ser uma mãe divorciada também eu sou filha de pais separados, o que  já me dá uma certa legitimidade para falar sobre o assunto.
Tinha menos de três anos de idade quando o meu pai resolveu sair de casa. Nos anos 70 a taxa de divórcios era bastante baixa relativamente aos dias de hoje e, normalmente, eram os homens que tomavam a iniciativa, quase sempre pelo mesmo motivo: outra mulher, o que levava a legítima e os seus rebentos a terem que carregar o rótulo de abandonados, um rótulo que pesava ainda mais quando se vivia num meio pequeno, como era o meu caso.
A data de 19 de Março era a mais difícil de todas. Na escola, todos os meus colegas preparavam um presente para oferecer ao pai e eu, para não ficar a olhar, fazia um para a minha mãe (ninguém me perguntava nada porque se me perguntassem eu preferiria fazer um para o meu pai ainda que não lhe o pudesse entregar).
O meu pai fez-me sempre muita falta. Chorei muitas vezes de noite e esperei por ele durante toda a vida, uma espera inútil porque ele nunca chegou e eu fiquei a sentir na pele o que é ser órfã de um pai vivo.
Por causa deste meu passado, a minha decisão de divorciar-me foi um grande pesadelo; não queria que a minha filha passasse pelo que eu passara. Só que as pessoas crescem e eu cresci e tomei consciência que os tempos mudam,  que as pessoas mudam e que as situações não são todas iguais. Por outro lado, é preferível uma criança ter os pais um para cada lado do que viver no seio de um ambiente contaminado com brigas e desentendimentos. O problema é que nunca se sabe até que ponto uma criança consegue interiorizar isto.
A lei actual está feita de forma a que os filhos, em caso de divórcio, fiquem a viver com a mãe e que passem fins-de-semana alternados com o pai. Feitas as contas são 48 dias anuais de convivência com o pai contra 317 dias com a mãe. Será isto justo e vantajoso para os menores? Provavelmente não, mas pior, muito pior que a provável injustiça da lei é que o tribunal não tem poderes para obrigar um pai a passar mais tempo com os filhos e, se é verdade que muitos sentirão revolta e impotência face à forma como a lei está feita, ainda há uma grande parte que tira proveito dessa lacuna judicial. De 15 em 15 dias vão buscar os filhos, domingo à noite despedem-se, entregam-nos às mães e retomam as suas rotinas diárias, interrompidas por aqueles visitantes ocasionais. Cumprem assim a lei como se ao cumprirem a lei estivessem a cumprir o seu papel de pais, como se fosse possível ser pai em part-time; como se fosse possível ser-se um pai por inteiro quando só se vê o filho de 15 em 15 dias, mas muitos acham que sim e, para esses, ainda que a lei mude, para eles nada mudará, porque jamais será possível criar uma lei que regulamente consciências… para mal de muitas das nossas crianças.
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2 comentários

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    Miguel Pinto Ribeiro 05.05.2008

    Desculpe a ousadia de comentar o seu comentário, mas não será que o seu ex marido, por feitio, não teria o mesmo comportamento se continuasse em casa, e a vossa relação fosse boa e estável? Quantas mães de famílias estruturadas, não se queixam dos maridos serem uns bonzanas permissivos? E por causa desta sua maneira de ser, ou à sua total falta de geito para educar, devem ser postos porta fora?
    Não seja tão azeda, por favor. Esse foi o homem que voçê escolheu para ser o progenitor dos seus filhos...má escolha sua. Quem lhe diz que os seus filhos quando crescerem não vão ter no Pai um apoio para a vida que está tão difícil, que se irá preocupar com as suas derrotas e as suas vitórias?
    Tente fazer-lhe ver que não está ajudar na educação e esclareça os seus filhos de que a vida não é cor de rosa, nem como o Pai a pinta...mas não o desmereça perante os jovens. Felicidades.
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