Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

A sangue frio

A primeira vez que uma pessoa sofre uma desilusão de amor, a primeira vez que uma pessoa é rejeitada e sente o duro golpe do abandono, fica atordoada... não sabe muito bem o que a atingiu, apenas se sente ferida e a sangrar... Atrás do golpe, as dúvidas: que fiz eu? O que deveria ter feito? Será que não sou suficientemente boa ou bom?
 
Com o tempo, muito tempo depois, a pessoa quase recupera, mas carrega consigo o machado que a atingiu e percebe que é uma arma demasiado pesada. Até que um dia, descobre alguém que é capaz de valer a pena e, inconscientemente, vai-se entregando até chegar o momento em que consegue adormecer feliz e confiante, sem se lembrar da pesada arma que repousa ao seu lado, à mercê do outro... quando acorda, sorridente, para dar os bons dias ao seu amigo, descobre-o com o machado em punho, a treinar a pontaria, exactamente ao mesmo local por onde um rio de sangue já tinha jorrado. Fecha os olhos, para que tudo aconteça depressa... De novo sangra, já não atordoada, mas a sentir a dor, a interiorizá-la, consciente do seu erro em ter confiado novamente em alguém. E sofre, já não com dúvidas, mas com certezas, com pelo menos uma certeza: nunca mais confiará em alguém ao ponto de adormecer a seu lado.
 
Passam-se dias, meses, anos. O machado jaz enferrujado num canto qualquer do passado. Até que, num momento que parece mágico, alguém tenta seduzi-la, dá-lhe a beber o néctar da ilusão e eleva-a nos braços ao sabor de uma melodia de emoções que lhe fazem sentir o desejo de fechar os olhos e abandonar-se ao destino. Mas... “Que cicatriz é essa?” – pergunta-lhe uma voz doce enquanto dedos trémulos lhe acariciam o pedaço de pele defeituosa. E é tudo o que lhe basta para que as suas memórias lhe façam reviver a dor. Praticamente sem se dar conta, a ferida reabre-se e recomeça a sangrar, levando-a, num impulso cego, a afastar da sua vida, para sempre, aquele que talvez fosse a sua última oportunidade de se desfazer do machado, de dançar a dança das promessas possíveis de realizar e de confiar, finalmente, em alguém... de olhos fechados.
 

Mas o sangue, o sangue só atrai vampiros e ela irá acabar por morrer sugada por um, a não ser que use o velho machado como arma de defesa até que ele lhe caia em cima, desferindo-lhe o último golpe, quando ela, já sem forças, adormecer de cansaço, fechada e sozinha, com a porta trancada por dentro com medo de deixar entrar o amor

https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/M3513d944/14817700_s3CMz.jpeg

3 comentários

  • Imagem de perfil

    AL 22.04.2008

    Obrigada, Fátima. É exactamente como dizes.

    Ufa, que já estava a ficar preocupada, com toda a gente a dar-me nas orelhas (não, não andei a misturar comprimidos) Até parece que as meninas crescidas não se magoam...!? A desilução é o termómetro da aprendizagem, desde que não se nos cole aos ossos e não nos impeça de ser quem somos, qual é o mal? E não se armem em esquisitos que eu sei que há por aí muito boa gente de portas e janelas trancadas, a espreitar por trás das cortinas...

    Verdade?
  • Sem imagem de perfil

    norberto 22.04.2008

    Este teu post, e todo o teu blog, merecem, sem dúvida nenhuma, este texto exemplar de Charles Chaplin.

    VIDA

    “Já perdoei erros quase imperdoáveis,
    tentei substituir pessoas insubstituíveis
    e
    esquecer pessoas inesquecíveis.

    Já fiz coisas por impulso,
    Já me decepcionei com pessoas
    quando nunca pensei me decepcionar,
    mas também decepcionei alguém.

    Já abracei pra proteger,
    Já dei risada quando não podia,
    Já fiz amigos eternos,

    já amei e fui amado,
    mas também
    já fui rejeitado,
    Já fui amado e não soube amar.

    Já gritei e pulei
    de tanta felicidade,
    já vivi de amor
    e fiz juras eternas,
    mas "quebrei a cara"
    muitas vezes!

    Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
    Já liguei só pra escutar uma voz,
    Já me apaixonei por um sorriso,
    Já pensei que fosse morrer de tanta saudade
    e...
    ...tive medo de perder alguém especial
    (e acabei perdendo)! Mas sobrevivi!

    E ainda vivo!
    Não passo pela vida...
    e você também não deveria passar. Viva!!!

    Bom mesmo é ir a luta com determinação,
    abraçar a vida e viver com paixão,
    perder com classe e vencer com ousadia,
    porque o mundo pertence a quem se atreve
    e
    A VIDA É MUITO
    para ser insignificante"

    Texto de Charles Chaplin

  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.