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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

A sangue frio

A primeira vez que uma pessoa sofre uma desilusão de amor, a primeira vez que uma pessoa é rejeitada e sente o duro golpe do abandono, fica atordoada... não sabe muito bem o que a atingiu, apenas se sente ferida e a sangrar... Atrás do golpe, as dúvidas: que fiz eu? O que deveria ter feito? Será que não sou suficientemente boa ou bom?
 
Com o tempo, muito tempo depois, a pessoa quase recupera, mas carrega consigo o machado que a atingiu e percebe que é uma arma demasiado pesada. Até que um dia, descobre alguém que é capaz de valer a pena e, inconscientemente, vai-se entregando até chegar o momento em que consegue adormecer feliz e confiante, sem se lembrar da pesada arma que repousa ao seu lado, à mercê do outro... quando acorda, sorridente, para dar os bons dias ao seu amigo, descobre-o com o machado em punho, a treinar a pontaria, exactamente ao mesmo local por onde um rio de sangue já tinha jorrado. Fecha os olhos, para que tudo aconteça depressa... De novo sangra, já não atordoada, mas a sentir a dor, a interiorizá-la, consciente do seu erro em ter confiado novamente em alguém. E sofre, já não com dúvidas, mas com certezas, com pelo menos uma certeza: nunca mais confiará em alguém ao ponto de adormecer a seu lado.
 
Passam-se dias, meses, anos. O machado jaz enferrujado num canto qualquer do passado. Até que, num momento que parece mágico, alguém tenta seduzi-la, dá-lhe a beber o néctar da ilusão e eleva-a nos braços ao sabor de uma melodia de emoções que lhe fazem sentir o desejo de fechar os olhos e abandonar-se ao destino. Mas... “Que cicatriz é essa?” – pergunta-lhe uma voz doce enquanto dedos trémulos lhe acariciam o pedaço de pele defeituosa. E é tudo o que lhe basta para que as suas memórias lhe façam reviver a dor. Praticamente sem se dar conta, a ferida reabre-se e recomeça a sangrar, levando-a, num impulso cego, a afastar da sua vida, para sempre, aquele que talvez fosse a sua última oportunidade de se desfazer do machado, de dançar a dança das promessas possíveis de realizar e de confiar, finalmente, em alguém... de olhos fechados.
 

Mas o sangue, o sangue só atrai vampiros e ela irá acabar por morrer sugada por um, a não ser que use o velho machado como arma de defesa até que ele lhe caia em cima, desferindo-lhe o último golpe, quando ela, já sem forças, adormecer de cansaço, fechada e sozinha, com a porta trancada por dentro com medo de deixar entrar o amor

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3 comentários

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    AL 22.04.2008

    Obrigada, Fátima. É exactamente como dizes.

    Ufa, que já estava a ficar preocupada, com toda a gente a dar-me nas orelhas (não, não andei a misturar comprimidos) Até parece que as meninas crescidas não se magoam...!? A desilução é o termómetro da aprendizagem, desde que não se nos cole aos ossos e não nos impeça de ser quem somos, qual é o mal? E não se armem em esquisitos que eu sei que há por aí muito boa gente de portas e janelas trancadas, a espreitar por trás das cortinas...

    Verdade?
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    norberto 22.04.2008

    Não é necessáriamente ser divorciado ou ter outro estado civil qualquer, até solteiro, para se ter passado pelas vivências de mais um post de exemplar realismo "A sangue frio".

    Quando nos entregamos por puro amor ou paixão as coisas podem acontecer exactamente assim.
    A cura, se é que existe, está na singularidade do nosso sentimento.

    Parabéns ANA
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