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Diário de uma divorciada

Amigos Comestíveis

Ao romper dos “primeiros dentinhos”, nós as divorciadas, passamos por uma fase semelhante à dos bebés, em que nos apetece levar tudo à boca. É naquela altura em que a cama de casal assume as proporções de um campo de futebol e a toalha de mesa se torna substituível por um “individual”. É justamente nesse momento aterrador em que a casa e o mundo se agigantam e ficamos mais vazias que um poço sem água, que começamos a sentir uma natural tendência devoradora. E eis então que tudo o que mexe, marcha (tudo o que mexe = tudo o que está à mão de semear, desde que, minimamente comestível, como é óbvio). E se não marcha é apenas e só por vergonha ou pudor, já que não temos quem nos bata nas mãozinhas. A quase solidão provoca medo que, por sua vez estimula carências várias e daí ao pecado da gula vai um passo de criança que ainda não sabe andar.
 
Das lições mais difíceis que uma divorciada tem de aprender, esta é talvez a primeira mais difícil de todas: comer, seja aquilo que for, não torna “aquilo que for”, nosso. Transforma-o, antes, em desaparecido ou, na melhor das hipóteses, em gordura. 
 
A segunda lição mais difícil é perceber que os amigos não são comestíveis. Todas sabemos que esta é uma regra básica que nunca, mas nunca, deverá ser quebrada.
 
Ora, acontece, porém, que eu (moi même, je – oui, c’est ça!), como sou uma nina muito teimosa e pouco dada a deixar-me domesticar por regras, descobri que existe uma forma de contornar a segunda situação (sobre a primeira nem o eco ainda me respondeu, mas um dia chego lá!). A excepção é então, um bolinho de pastelaria delicioso, típico da região de Peniche e que dá pelo nome de, precisamente, “amigo” (favor não reclamar, porque é o que se arranja e o que se arranja sempre é melhor que nada!).
 
Portanto, minhas queridas, esqueçam o chocolate e as pipocas (e já agora, as comédias românticas) e mostrem um pouco de atitude da próxima vez que tiverem que justificar o quilinho ou dois a mais: “Ah, isto!? É que andei a comer uns amigos!” – Soa muito melhor, não soa?

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