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Diário de uma divorciada

Ossos de ofício...

 

Há pessoas que nos inspiram de tal forma que agora apeteceu-me falar do meu chefe, mesmo estando eu em plenas férias. E dizem vocês: “esta gaja divorciada passou-se de vez!?”. E têm toda a razão! Passei-me mas não foi uma coisa assim à maluca, não senhor! Ele há um motivo... Querem ler!? Embora!
 
Verdade seja dita: eu detesto o meu chefe quando ele está com os azeites ou com as antenas reviradas. Até aqui nada de novo, pois ninguém gosta de ter um chefe com os azeites e as antenas reviradas, ou gosta!? Só que depois há sempre aqueles dias em que dormimos mal, estamos já com um grande período de abstinência ou simplesmente também não estamos de maré e vai daí, então, o ambiente azeda um bocado e tudo o que nos dá ganas de fazer é bater com a porta e mandá-lo mais à instituição para aquele sítio democrático que todos nós conhecemos, mas que parece mal a uma pessoa minimamente educada... E enchemos, e enchemos e enchemos e depois contamos até dez por ordem crescente, decrescente e aleatória até que a raiva nos passe, porque chefe é chefe e diz que engolir sapos e conter a irritação faz mal ao interior do organismo, mas que é bom para preservar aquele local de culto obrigatório que faz toda a diferença para quem tem a hipótese de escolher entre ser pobre ou ser mendigo.
 
Bom, mas tirando a parte de ter que aturar um chefe na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, em todos os dias da minha vida até que uma melhor oportunidade laboral nos separe, às vezes também tem o seu lado bom. E é aí que o meu chefe me tem servido de exemplo e inspiração; graças a ele, consigo, hoje em dia, desembuchar tudo o que me vai na alma sem ter que pedir autorização a ninguém, o que na prática, significa que aprendi a ser directa, sem ser malcriada e a deixar de lado os “rodriguinhos” quando não fazem falta nenhuma e às vezes até atrapalham o conteúdo da mensagem. E também aprendi a ser obstinada e sempre que me invade aquela moleza “pré-lamecho-depressiva” que antecede a ociosidade, lembro-me das palavras que ele um dia me disse, com um ar quase paternal, quando tentei sintetizar um relatório de dez páginas, apenas numa: “Ana, não seja preguiçosa!”.
 
Sim. É claro que gosto do lado construtivo do meu chefe, que em oito anos de trabalho, me tem ensinado algumas coisas acerca das relações pessoais; ele é daquelas pessoas que diz o que pensa (e o que é admirável é que pensa por ele), mas de uma forma clara e bem argumentada. Além disso é um luxo no que toca ao humor inteligente quando está de bem com ele mesmo ou com algo que lhe sucedeu. E é aqui que entra, aquilo que quanto a mim poderia ser aperfeiçoado: vive muito ao sabor dos seus humores e raramente consegue ser diplomático. Mas enfim... Se os defeitos de toda a gente fossem apenas uma questão de espontaneidade, não haveria hipocrisia no mundo, nem vontade de apontar o dedo de forma anónima em nome de uma justiça moralista para quem tudo tem uma explicação. E foi precisamente essa a razão pela qual me apeteceu falar do meu chefe (que quando quer, até é boa pessoa, só que raramente se percebe quando faz de propósito); para além de uma homenagem é também um recado ao amigo de um amigo (que eu não faço a mínima de quem seja, mas não faz mal!) que me enviou uma mensagem a dizer que os meus “escritos” revelam alguém frio, arrogante e insensível (ok, crítica aceite e registada) e que, segundo ele, a culpa é do divórcio (!?!?). “Hellou!?” Uma pessoa divorciada também vive (boa!?), também aprende, também trabalha, também convive com o resto do mundo e por aí fora... É linda essa forma ingénua de achar que o simples estado civíl determina a maneira de ser de alguém para o resto do seu futuro, tão linda que me deu vontade de intelectualizar a questão: Viva o “trio Odemira”! Viva a “Margarida Rebelo Pinto”! Viva o “Zézé Camarinha” e o meu saudoso “stôr” de latim!... E Viva o meu chefe, pois claro!!
 
Post Scriptum:... e vivam as férias dos alfacinhas e o consequente descongestionamento do trânsito do IC19!...
 
 

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