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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

19.Jun.08

Três velhos sábios

 

Nutro um grande respeito e admiração pelos velhos. Velhos, sim, que a palavra “idoso” soa-me mal, lembra-me “defeituoso” e para mim, os velhos são tudo menos isso; os velhos são pessoas com imensa sabedoria, experientes e de inestimável valor. Todos os velhos mereciam que alguém lhes escrevesse um livro com as suas memórias para ficarem disponíveis para consulta pública e serem depois transformados em objectos de estudo de especialistas.
Vou falar-vos da Maria. A Maria foi uma senhora, minha vizinha, que tinha a cabeça cheia de “branquinhos” e fazia umas covinhas nas bochechas gorduchas quando sorria. Lembro-me dela sempre a sorrir. Fizemos amizade por causa dos livros: ela adorava ler e tinha uma enorme biblioteca. Então, de vez em quando, trocávamos algumas obras emprestadas e ficávamos um bocadinho à conversa. A Maria sempre me intrigou por ser uma pessoa muito bem-disposta; não tinha filhos e vivia sozinha com dois gatos, os “seus meninos” como ela lhes chamava. Um dia arranjei coragem para fazer-lhe a pergunta que me alimentava a curiosidade havia tempo: “A Maria nunca casou?”. Ela sorriu e respondeu-me, calmamente: “Casei sim, tinha quarenta e dois anos. O meu marido morreu seis anos depois, mas foram os tempos mais felizes da minha vida. Posso viver até aos duzentos que tenho memórias que cheguem para isso”. Calei-me. A Maria faleceu dois anos depois, vítima de um ataque cardíaco fulminante, mas há-de ficar para sempre viva em mim com o  seu sorriso fácil e ao seu precioso ensinamento.
Havia também o meu tio Martins, que sofria de esclerose e que se manteve solteiro até aos setenta e muitos anos, altura em que partiu. A esse, num dos seus raros momentos em que ele ainda conseguia manter uma conversa, perguntei-lhe também: “Porque é que o tio nunca se casou?”. Ele olhou para mim fixamente e respondeu-me com a mesma segurança e convicção que outrora tinha feito dele um homem muito respeitado e respeitável: “Para quê? Eu tinha as mulheres que queria”, e voltava a pedir-me as fotos dos jantares e festas no navio, da altura em que era comissário de bordo, onde se viam muitas raparigas com cinturinhas de vespas e belos vestidos, com um ar arrebatado, sentadas ao seu lado ou perdidas nos seus braços, a dançar.
O meu tio Martins tinha um amigo que frequentava a casa e que esteve com ele até ao fim, era o saudoso Ricardo Alberty que insistia em ensinar-me inglês nos serões que passávamos juntos em casa do tio e me contava, orgulhoso, que a Rosa do Canto se tinha estreado no teatro com uma peça que ele escrevera... A ele nunca cheguei a perguntar o motivo de ter chegado àquela idade sozinho, mas também não foi preciso porque ele respondeu-me na mesma (e não foi só a mim), através dos livros de histórias para crianças que deixou publicados. Que outra coisa senão o amor lhe teria possibilitado voar para o lugar secreto onde mora a perfeição: o reino dos sonhos e da fantasia onde nada acontece por acaso!?

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