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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

25.Mai.08

A vida depois de ti

 

O fim do nosso casamento lançou-me para uma encruzilhada de emoções onde, durante um certo tempo, fiquei presa; exposta ao rebentar das dúvidas que me inundavam os dias, sem saber que caminho seguir, de tal forma tinha entranhado o hábito de te ver sempre presente em todo o lado. Não havia um único recanto onde tu não impusesses a tua presença com aquela tua cara fechada em que nenhum sorriso se abria, nem nenhum olhar conseguia cruzar o meu que te procurava, desorientado, ávido de um sentimento que nem sei se algum dia existiu em ti ou se apenas não tinhas capacidade de o demonstrar.  Nunca assisti a qualquer manifestação de romantismo nesse teu mundo racional demais, prático demais, onde não havia lugar para “nós” nem para o futuro. Um futuro que só poderia ser mais, muito mais do que ver-te criar raízes num vaso pequeno onde não cabiam os meus sonhos nem os meus projectos.
 
Levei algum tempo a perceber que apenas me tinha divorciado de ti e não da vida. Hoje em dia, consigo ver-me ao espelho sem o reflexo da tua imagem e reconhecer-me. Não sei se é egoísmo, mas se for, é um egoísmo saudável de alguém que conseguiu, finalmente, libertar-se. E não foi preciso assim uma grande liberdade, pelo menos não muito maior do que aquela que tinha quando vivia contigo, mas essa não era bem liberdade, era apenas um vazio crescente e sufocante de dois seres que já não tinham nada que dizer um ao outro.
 
Agora é diferente. Agora sou feliz, sabes... sinto aquela felicidade imaculada que se aprende no silêncio e na solidão. E não é bem pela tua ausência. Não se trata disso, é algo bem mais profundo: é o reencontro com a minha essência, o poder SER sem o teu consentimento ou aprovação. Um ser cujo epicentro deixou de ser o teu umbigo para passar a ser o meu nariz.
 
Não compreendes. Sabes do que se trata? Queres mesmo saber? Trata-se de conseguir realizar-me sem depender do teu humor. Agora sei que era exactamente isso que me faltava.
 

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