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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

18.Abr.08

Porque eu mereço

Desengane-se quem julga que aqui vem ler confissões reveladoras sobre o meu presente. Normalmente, só consigo expor cá para fora as coisas sérias que acontecem comigo após um razoável distanciamento temporal e circunstancial, em tudo à semelhança do que se passa com todas as pessoas que têm um ex nas suas vidas. Um ex só nos dá o devido valor quando percebe que nos perdeu. Não sei se é o mesmo com toda a gente, mas pelo menos comigo é assim.
Ainda ontem fui surpreendida por mais uma tentativa de reaproximação (sem querer exagerar, deve ter sido para aí a qualquer-coisa-ésima) de alguém vindo do passado. Cheio de rodeios e rodriguinhos, lá me foi convidando para um romântico jantar à beira-mar ; que estava a precisar de desabafar; que a sua vida está agora bastante estável e calma e que até tem um novo cargo muito bem remunerado e tal e coiso… (acreditem que é verdade: há homens que não percebem que a inflação de uma mulher experiente não se mede em euros. Cheguei a essa conclusão depois de muito me questionar se acaso não teria eu alguma característica fisionómica particular que me desse ares de materialista ou interesseira).
Ora, quando um tipo que, indubitavelmente, já provou de A a Z que não te interessa, recai numa nova investida com a quase inocente afirmação ladainhosa do “sinto-me sozinho”, uma vez (tu nem respondes, duas (é que nem te dás ao trabalho…), três (este gajo, de vez em quando, dá-lhe), quatro (já estás a chatear é demais!), cinco (deixa-me cá ignorá-lo, novamente, que ele vai acabar por perceber), e seis (é que já me estou a passar!), e sete (dassss, tenho que mudar de número, ou quê!?), e oito (mas que g’anda melga!), e nove (ó pá, deixa-me da mão, ó cromo!), e dez (pronto, já chega!)…
- Ok. O que é que tu queres?
- Estou outra vez sozinho! - Voz muito melosa e desgraçada.
- Boa, parabéns! Junta-te ao clube! – (às vezes irrita-me ser tão espontânea).
- Tenho pensado muito em ti… - (não me digas, é que eu ainda nem tinha dado por isso).
- E?
- Eu sei que já não queres nada comigo – (então se sabes porque é que insistes, ó totó?) – Aceitas um convite para jantar?
- … (silêncio)…
- Nem que fosse com o teu grupo. Podias apresentar-me uma amiga – (é preciso lata! Não, querido, infelizmente para ti, não pertenço a nenhuma fornada de parvas em série).
- … (novo silêncio ainda maior)…
- E blá, blá, blá (e chora-se) e blá, blá (e funga) e blá (e lamenta-se) e mais blá (etc..)
- Olha lá, ó Vasco, afinal ainda não cheguei a perceber o que é que tu queres!?
- Eu só queria ter estabilidade no amor – (claro!).
- E tu não achas que já tiveste oportunidades suficientes para isso? Já te passou pela cabeça que o problema até pode estar em ti? Como é que uma pessoa pode exigir a outra algo que ela própria não sabe dar?
- Pois é, Ana, sempre tiveste o dom de me pôr a pensar... – (pelos vistos em coisas parvas, mas vá).
- É bom que penses, Vasco, é bom que penses. Enquanto não aprenderes a ser feliz na solidão nunca aprenderás a ser feliz com ninguém.
- És capaz de ter razão.  Então e tu, já tens alguém? – (tardou mas foi).
-Não, mas estou interessada numa pessoa.
- Ai sim?
- Sim. - (sorriso de orelha a orelha que se deve ter pressentido do outro lado).
- Ainda bem. Espero que ele te dê valor. Tu mereces ser muito feliz…
- Obrigada, Vasco. E vê se não stressas. Verás que ela há-de acabar por aparecer. Xau!
- Adeus e desculpa, eu prometo que não te incomodo mais.
Estava difícil. Pelo menos lá consegui uma defesa diplomática de mais uma dessas almas sem rumo que chegam a fazer-me bicha na porta de entrada, arrastadas pela corrente de um arrependimento qualquer.
Será isto normal!? O passado fala comigo e diz-me coisas que eu nunca pedi a Deus para ouvir!
Cada qual tem o passado que merece...

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