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Diário de uma divorciada

Testemunhos: XXI

Olá. Tenho 42 anos, em fase inicial da separação e com 2 filhos.
Todos parecidos, todos iguais: os divórcios.
Éramos vizinhos desde os meus 12, começamos a namorar aos 22 e casámos aos 24. Toda a gente foi contra porque eu estava a acabar o curso de Arquitectura e ele era pedreiro. Como sempre, a ilusão: foi o meu único namorado, eu achava que ele era a única pessoa do mundo a gostar de mim e aceitava o facto de os médicos terem-me diagnosticado como impossibilitada de ter filhos. Enganaram-se, os médicos. Engravidei sem contar aos 30 anos.
O desgaste começou na noite em que lhe quis dar a notícia da gravidez: adivinhou e não apareceu. O segundo filho veio devido à pílula que estava a tomar não ser a adequada. Resultado: o afastamento foi progressivo. Eu considerava-me culpada e fui perdoando tudo e mais alguma coisa, além de que ainda "lhe passava a mão na cabeça". Uma das traições, há 3 anos deixou-me completamente desvairada e pus-lhe a mala à porta. Voltou no dia seguinte a conselho da amante e eu, como o meu filho mais velho (na altura com 9 anos) estava a reagir muito mal contra mim, tive medo e aceitei-o de volta, mas nunca mais consegui esquecer tudo o que me tinha dito e a sensação de alívio que senti naquelas 24 Horas.

Bem... somos sócios numa empresa, trabalhamos juntos e temos alguns bens que fomos adquirindo. O relacionamento, apesar de muito esforço de ambos, nunca mais foi o mesmo. A mim falta-me um companheiro - às vezes tenho a impressão que tenho é 3 filhos -  a ele falta-lhe a farra. Eu culpo-o a ele, e ele culpa os filhos. Tenho-lhe  dito várias vezes ao longo do último ano que deve reconhecer que o amor já era e que temos ainda hipótese de sermos felizes, seja lá como for, mas juntos vai ser difícil. Nunca aceitou e as ameaças de fogo aos bens e de morte para todos nós, fazia-me arrepiar.

Finalmente, em Janeiro, para festejar o aniversário do meu filho mais velho (12 anos), convidei os meus pais para almoçar e Sua Exª não saiu do quarto. Não foi o motivo...foi a gota de água. Resolvi pôr um ponto final. Mais um vez fiz de mãe dele, deixei-o a viver cá em casa até estar pronto um pequeno palacete que tínhamos começado  reconstruir. Falta uma semana!
Claro que as ameaças foram muitas e de toda a espécie, mas desta vez algo não corre como do costume... o cansaço é muito. Tenho-me mantido firme porque cheguei mesmo à conclusão que as diferenças com o tempo afastam as pessoas: eu quero uma vida mais simples, ele só se contenta com Mercedes, barcos e festas; nunca foi possível ir de férias porque lhe mete impressão ir para um sítio onde ninguém o conhece, etc... Vivemos numa cidade pequena e somos pessoas importantes.

Conclui que as pessoas não mudam assim tanto… ele sempre foi o que é, eu é que não quis ver, talvez por uma auto-estima fraca. Sempre saiu à noite em solteiro, ficou feliz por não poder ter filhos e sempre disse que não queria uma mulher bonita, mas inteligente para o ajudar a chegar onde queria. Eu é que achava muita piada a isso. Agora vai ficar com os bens todos, quando não sabe como funciona o cartão multibanco, uma placa vitrocerâmica, uma máquina de lavar e muitas outras coisas tão simples. Só me entristece uma coisa: não quer os filhos nem um fim-de-semana por mês: ou ainda está para nascer o filho que o vai ensinar a ser pai, ou morre sozinho - como aliás os pais dele apesar de serem 4 filhos.

Sei que me espera: solidão - já a tenho há quase 13 anos; responsabilidade: sempre geri a casa e a empresa em termos financeiros; sobrecarga: até hoje tive 3 filhos comigo - o mais problemático vai sair, mas tenho a certeza de que ainda vamos todos a tempo de sermos  felizes ... cada um ao seu jeito.

Obrigada pela iniciativa. Tem sido importante ouvir os outros porque conheço pouco divorciados. Bjs

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