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Diário de uma divorciada

Coisas simples

Estava a tentar domar o teimoso remoinho do meu cabelo quando dei por mim a sorrir ao espelho ao lembrar-me do Paulinho Pacheco. O Paulinho Pacheco foi o meu primeiro (e talvez o único) verdadeiro amor. Faz parte das minhas mais remotas memórias. Tinha eu por aí uns cinco e ele uns quatro aninhos…
O Paulinho era tímido e chorava por tudo e por nada, mas comigo sentia-se em segurança. Eu ficava muito séria a olhar para ele sempre que o via fazer beicinho e ele logo interrompia o pranto para desatar às gargalhadas até se engasgar com soluços. À hora das refeições, a sua avó implorava-me sempre para ficar junto dele, pois só assim conseguia fazê-lo comer alguma coisa: “Olha o passarinho… “ – dizia-lhe eu a cada colherada – “e pum, tá morto!” – Depois íamos brincar: ele, muito amoroso, no seu fatinho de malha cor de tijolo e espingarda de plástico pendurada ao ombro e eu de saia às preguinhas e meias pelo joelho; sempre os dois de mão dada, ele hesitante e apreensivo e eu a puxá-lo e a encorajá-lo para irmos explorar o grande e admirável mundo que era o nosso quarteirão. E lá seguíamos, juntos, com o deslumbramento de dois astronautas num planeta desconhecido.
Qualquer coisa nos deixava o coração aos pulos: o som das cegonhas que, na Primavera, pousavam na chaminé do casarão amarelo; os ovos no pequeno ninho da árvore, no quintal grande da tia Custódia, que todos os dias íamos espreitar para tentar ver os passarinhos nascer, e até o carro preto do Manulito que serviu de quadro quando, com uma pedra, eu lhe mostrei, feliz e orgulhosa, que já sabia escrever o meu nome.
De quando em vez, ele detinha-me a meio de uma caminhada e surpreendia-me com um beijinho sonoro e inesperado na bochecha. A seguir corava e ria-se do remoinho do meu cabelo. E eu fingia que me zangava e fazia cara de amuada para, logo a seguir, o ver a correr para mim, aflito, a pedir-me desculpa: “Vamos brincar?” - E eu, cedia, feliz, depressa me esquecendo do defeituoso pormenor do meu cabelo.
Por vezes prendemo-nos a coisas tão miúdas e sem importância que nem damos pelo mundo e a vida que passa mesmo ali ao lado, com tudo o que de simples e surpreendente continua a ter, ainda, para nos mostrar.
 

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