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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

06.Dez.07

Homens com Lágrimas

Que os homens também choram já todos nós sabemos, mas há uns mais sensíveis que outros.
Existem dois tipos de choro: o primeiro trata-se do choro desesperado como reacção a uma frustração ou contrariedade em que uma pessoa sente pena dela própria e o segundo é o choro libertador que serve para lavar a alma. Sou pouco tolerante relativamente ao primeiro, mesmo que parta de uma criança. Quanto ao segundo, sou capaz de ficar ali, em silêncio, porque este é um pranto muito íntimo e que requer solidão.
O meu primo Luís é um homem feito que sofre por amor. É verdade! (e desenganem-se todos aqueles que pensam que isso são coisas de gajas). Ele sofre e até aqui tudo bem. O pior é que o sofrimento, agora, vem acompanhado pelo tipo de choro número 1.
Estranhei um desabafo que lhe saiu dizendo que estava a sentir-se usado por uma mulher. Eu confesso que desconhecia o termo “usado” na versão masculina e arregalei os olhos para lhe devolver o vocábulo na forma interrogativa:
“-  Usado???”
“ -  É que ela só me procura quando se sente carente. Fazemos sexo e, de seguida, desaparece por uns tempos…”
“- Ora, Luís, mas eu já ouvi falar disso. Chama-se queca mágica” – Gracejei (não sei como é que ainda há quem me leve a sério, pois tenho sempre que temperar com uma graçola os piores momentos, mas a intenção é boa e quem me conhece já sabe que sou assim)  – “Se te sentes mal, afasta-te e pronto!”
E ele, quase, mas quase a fazer beicinho:
“- Não consigo! Eu já tentei, mas ela acaba sempre por procurar-me e eu não consigo resistir porque gosto mesmo dela.”
“- Então, nesse caso, faz por aproveitar os momentos bons e não penses no que vem a seguir. Talvez um dia ela perceba a pessoa maravilhosa que és e decida ficar. Se não, quem perde é ela!”
“- Pois, mas… o que é que tu achas? Vá lá, ajuda-me!”
“- Eu!? Como é que eu posso ajudar-te!? Eu conheço-a mal e não sei até que ponto ela saberá que te sentes assim… usado.”
“- Não deveria mostrar-me demasiado sentimental à frente dela, não é!? Estou a dar parte de fraco!?”
“- Sabes, Luís, é preciso uma maturidade imensa e um grande arcaboiço emocional para se compreender as lágrimas masculinas. É suposto vocês serem “o elo mais forte”… Se na vossa relação não há cumplicidade, é provável que ela não compreenda…”
“- Achas!?  Tu és mulher e compreendes.” E olhando-me com uma sombra de dúvida: “ Não compreendes?”
“- Sei lá. Olha, se calhar até nem compreendo. Lembras-te quando o tio Paulo caiu num pranto pegado, depois de se embebedar, tudo porque a tia Maria da Luz fugiu com aquele puto!? Nós ainda éramos adolescentes e eu lembro-me que, naquele momento, me senti mais perdida e confusa que um rato no meio da Amazónia!! Caramba, afinal, tratava-se do tio Paulo e o tio Paulo era um herói para nós!” – Fiz uma pausa. Cada vez que penso naquele momento, tenho vontade de esconder-me. Felizmente, o tio Paulo acabou por recuperar e hoje é um homem de sucesso a todos os níveis, mas aquela memória dele ainda me incomoda um bocadinho. Que estranho!
“- Não sei, priminho. Talvez seja melhor tentares regular essa tua sensibilidade exacerbada. Sim, é o melhor para ti. Se não conseguires moderar o teu comportamento, pelo menos que deixes de vitimizar-te, pois é apenas isso que te faz sofrer.”
E foi o fim da conversa. Não sei se ele ficou a procurar motivação a relembrar a fraqueza de espírito do tio Paulo ou a pensar que teria sido melhor não me contar nada. Só sei que, ultimamente, não o tenho ouvido lamentar-se. Eu, por meu lado, descobri mais uma razão para perceber porque é que tendo sempre para os homens demasiado racionais. Quem sabe isto não seja a chave para um futuro amoroso mais risonho e promissor…

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