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Diário de uma divorciada

Diário de uma divorciada

05.Nov.07

O Comboio do Tempo

A luz do luar entra timidamente pelo estore entreaberto. Lá fora ouço vozes e música alta vinda de um carro que corre apressado. A vida revela-se na noite. Noite de ilusões, de sonhos efémeros, de lágrimas e risos, de gentes que acreditam que as promessas se cumprem de sentidos despertos.
Eu aqui, jazo neste quarto povoado pelos fantasmas do passado e do futuro que me atormentam mais e mais enquanto o sono não chega. Contenho a respiração e franzo a testa ao ouvir esses sons reais que entram desrespeitosamente nos recantos vazios da minha semi-inconsciência…
Às vezes parece-me ouvir a voz da minha avó a dizer-me: “aproveita a vida. Tu és jovem, bonita… não te atrases que o comboio do tempo não espera! O tempo rouba-nos tudo!”.
O comboio do tempo não me deixa espreitar pela janela para ver as árvores passar, mas deixa-me que me sente comodamente sempre que me lanço nas habituais visitas de estudo à minha alma enquanto segue apressado pelo túnel da noite.
O relógio toca duas badaladas em estéreo como que a representar a dualidade da tua presença nas minhas mais marcantes memórias. Vejo-te chegar na badalada da esquerda com um ramo de margaridas azuis que colheste do teu jardim. Um azul tão perfeito que parece o espelho do teu olhar. Trazes um sorriso a condizer e convidas-me para dançar. Do alto do teu abraço terno e firme vejo o mundo a girar lá em baixo como um carrossel colorido. Os teus dedos pousam docemente nos meus olhos agora fechados. Com um único gesto deténs o comboio dentro da escuridão do túnel impedindo-o, por momentos, de trespassar esta minha perfeita levitação.
Quando os meus pés tocam suavemente na madrugada já as tuas gargalhadas ecoam na badalada da direita. E ali me detenho, olhos arregalados e coração atordoado, enquanto te afastas com o teu longo manto e desenhas no horizonte negro da minha solidão com a tinta fresca do meu sangue a palavra “ADEUS”…
- Volta!!! Vira-te para trás, por favor!
A rouquidão da minha voz enfraquecida confunde-se com a brisa que faz estremecer um pouco o estore entreaberto. Enrosco-me como um feto. Quando os meus olhos cansados, finalmente se fecham, apaga-se a noite.
O tempo, esse ladrão, continuará a sua marcha fúnebre camuflado pela ilusão de uma felicidade qualquer, tão intensamente qualquer como aquela que se sente ao ver as manhãs dos outros banhadas pelo nosso sol.
A vida, que durante a noite se prostituíra por uma boa causa, assume agora o seu papel maternal e acessível, preparando-me as malas com todo o carinho e dedicação que eu preciso para poder adormecer e colocar-me uma vez mais na fila que alegremente reclama o seu bilhete para a próxima viagem.

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